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Estudos, tradução

EFF: Por quê precisamos de um Movimento Redes Sem Fio Abertas

imagem de Link Estadão

Ontem (25 de julho) o Link Estadão publicou as reportagens Liberte seu roteador e Empresas expandem rede de Wi-Fi grátis. A matéria cita a bandeira do “Movimento Redes Sem Fio Abertas”, hasteada em abril em um artigo de Peter Eckersley, chefe de segurança da Fundação Fronteira Eletrônica (EFF).

Em breve analisaremos o contexto da responsabilzação jurídica de quem mantiver aberta uma redes sem fio no Brasil. Antes, publicamos a tradução que Isabel Colucci e eu fizemos do artigo da EFF:

27 abr 2011

Por quê precisamos de um Movimento Redes Sem Fio Abertas

Chamada à ação por Peter Eckersley

Se você às vezes se encontra precisando de uma rede sem fio aberta para poder verificar seu e-mail de um carro, uma esquina, ou um parque, deve ter notado que elas estão ficando mais difíceis de encontrar.

Histórias como a do fim de semana sobre um monte de policiais derrubando a porta de um homem inocente porque aconteceu de ele deixar a sua rede aberta, assim como os medos em geral sobre redes lentas e privacidade online, estão convencendo muitas pessoas a bloquear com senha seus roteadores WiFi.

O desaparecimento gradual de redes sem fio abertas é uma tragédia dos comuns, com uma pitada confusa de debate sobre privacidade e segurança. Este ensaio explica porque o bloqueio progressivo das redes sem fio é prejudicial – para a conveniência, para a privacidade e para o uso eficiente do espectro eletromagnético.

Vamos precisar de um movimento político e tecnológico pelo wireless aberto para reverter a degradação deste componente indispensável da infraestrutura da Internet. Parte da tarefa será simplesmente lembrar as pessoas que a abertura do seu Wi-Fi é a coisa socialmente responsável a fazer, e explicar que os indivíduos que optam por fazê-lo podem apreciar a mesma proteção legal contra a responsabilização que qualquer outro provedor de acesso à Internet.1 indivíduos, incluindo Bruce Schneier e Cory Doctorow, lançaram algumas das bases. É hora de espalhar esta mensagem por toda parte.

Mas um Movimento Rede Sem Fio Aberta também precisa fazer um trabalho técnico: nós precisamos criar novas tecnologias para garantir que as pessoas tenham uma maneira fácil de compartilhar uma parte da sua largura de banda sem afetar o desempenho de suas próprias conexões de rede e, ao mesmo tempo, garantir que não haja absolutamente nenhuma perda de privacidade para ter uma rede sem fio aberta.

O mundo sem fio em que deveríamos viver

A maioria de nós já teve a experiência de uma inconveniência tremenda por conta da falta de acesso à internet. Estar perdido num lugar estranho sem poder encontrar um mapa; ter enviar um email urgente para enviar sem um jeito de fazer isso; tentar encontrar um amigo sem uma maneira de contatá-lo. Mesmo que tenhamos planos de dados para os nossos telefones móveis, nós provavelmente tivemos essas experiências em cidades ou países onde nossos telefones não têm cobertura ou não tem combertura por menos que um preço extorsivo. Podemos até enfrentar esse problema em casa, quando a nossa conexão à Internet cai enquanto precisamos usá-la urgentemente.

Encontrar-se nesta situação é como passar sede quando todos à sua volta desfrutam de belos copos grandes de água gelada, ou se achar com frio e molhado na chuva porque ninguém vai deixar você entrar embaixo do guardachuva deles. Nesses momentos quando você está perdido, ou perdendo um prazo, ou falhando em encontrar seu amigo, é quase sempre verdade que os links de dados na Internet estão viajando através de seu corpo sob a forma de sinais electromagnéticos sem fio – só acontece que as pessoas optaram por bloquear essas redes para que você não possa fazer uso delas.

A tragédia dos comuns

Quando as pessoas ativam a criptografia WEP ou WPA para as suas redes de forma deliberada, há duas razões comuns: o desejo de evitar que seus vizinhos de “peguem carona de graça” em suas conexões, e um medo que um WiFi sem criptografia seja um risco de segurança ou privacidade. Ambas as razões têm um grau de legitimidade, mas nenhum deles muda o fato de que seria melhor se houvesse mais redes abertas. Além disso, esses dois problemas poderiam ser resolvidos sem a senha de travamento de nossas redes. O que nós precisamos, pelo contrário, é desenvolver e implantar melhores protocolos de WiFi.

Vamos nos concentrar na primeira questão por um momento: a priorização de tráfego.

Muitas pessoas gostariam de ter a conexão de rede mais rápida possível, e por isso estão relutantes em deixar seus vizinhos compartilhar seus links. Afinal, se o seu vizinho estiver ouvindo música via streaming ou assistindo a vídeos do YouTube em seu WiFi, isso vai deixar sua conexão um pouco mais lenta. Mas essas mesmas pessoas provavelmente estariam dispostas a desistir de alguma largura de banda em casa de vez em quando, em troca de ter rede sem fio livre e aberta em qualquer lugar. Em outras palavras, todos nós estaríamos melhor se todos nós deixássemos nossas WiFi abertas, mas cada um de nós se beneficia muito pouco se fecharmos nossa WiFi. Nossa incapacidade de trabalhar em conjunto nos impede de aproveitar um acesso à Internet melhor e mais generalizado.

A melhor solução para este problema é ter roteadores WiFi que tornem muito fácil compartilhar uma faixa determinada de conexão em uma rede aberta, mas simultaneamente proporcione uma rede WPA criptografada que tenha prioridade sobre a rede aberta. Alguns roteadores modernos já suportam múltiplas redes como essas, mas nós precisamos de uma configuração simples, de um único clique ou padrão para ter a priorização certa.

Garantindo o Futuro da Wifi Aberta

Se o problema de Wifi aberto fosse apenas convencer as pessoas a partilhar as suas conexões, nós estaríamos em uma situação melhor. Pessoas o suficiente compreendem a importância da partilha que nós teríamos com redes abertas mais ou menos por toda a parte.

O problema que está realmente matando a WiFi aberta é a idéia de que uma rede sem senha oferece riscos de privacidade.

Essa idéia é apenas parcialmente verdadeira. Os especialistas em segurança vão argumentar longamente sobre se WEP, WPA e WPA2 realmente dão segurança, ou apenas uma falsa sensação de segurança. Ambos os lados são parcialmente corretos: nenhum destes protocolos vai colocar ninguém a salvo de hackers ou malwares (WEP é obviamente trivial de quebrar e WPA2 muitas vezes fácil de quebrar na prática), mas também é verdade que mesmo um sistema de criptografia defeituoso aumenta o esforço que alguém nas redondezas teria que ter para poder ouvir pelas paredes, e pode portanto às vezes prevenir que as paredes tenham ouvidos.

Realmente não importa que a criptografia WiFi seja uma má defesa contra a espionagem: a maioria dos usuários só entende a mensagem de que ter a criptografia é bom e, então, eles criptografam suas rede. O verdadeiro problema não é que as pessoas estejam criptografando seus Wi-Fi: é que a criptografia impede o compartilhamento da rede WiFi com os seus amigos, vizinhos e estranhos vagando perto de suas casas que na verdade estão perdidos e precisam de um mapa digital.

Precisamos de Wi-Fi que seja aberto e criptografado ao mesmo tempo!

Na medida em que há algum benefício de privacidade (e psicológico) em usar uma rede WiFi criptografada, não há razão de verdade pela qual usuários de WiFi aberta não deveriam ter estes benefícios também!

Não há atualmente nenhum protocolo de WiFi que permita a qualquer pessoa usar a rede, enquanto se usa criptografia na camada de conexão para prevenir cada membro da rede de ouvir os outros pelas paredes. Mas um protocolo assim deveria existir. Existem alguns detalhes técnicos a serem trabalhados para que isso seja possível, mas eles são viáveis. 2

Na verdade, este protocolo proposto oferece um pouco dos benefícios de privacidade/segurança não disponíveis em WPA2 com senha compartilhados, que é o mais forte sistema de criptografia de WiFi de fácil implementação. Sob a WPA2 todos os usuários na rede podem calcular as chaves de sessão de cada um e ouvir pela parede sobre os outros. Com nosso projeto sugerido, isso deixaria de ser possível.

Os benefícios não intuitivos da Rede Sem Sio Aberta

Desde 1994, o governo dos Estados Unidos leiloou enormes porções do espectro eletromagnético para as empresas de telecomunicações. WiFi opera em pedacinhos de espectro que sobraram dos leilões. Processos semelhantes ocorreram em muitos outros países.

Mas as redes WiFi (especialmente modernas redes 802.11n) acabaram fazendo inerentemente um uso muito mais eficiente do espectro que os sistemas de torres de telefonia celular amplamente espaçadas. Isto resulta de uma propriedade dos protocolos de rede sem fio, chamada eficiência espectral de área: basicamente, se os seus dados só têm que viajar para um roteador próximo, a mesma faixa de freqüência pode ser usada pelos dados de outra pessoa depois da esquina ou do outro lado da rua. Em contrapartida, se os seus dados precisam viajar por todo o caminho até uma torre de celular, ninguém mais no meio pode usar essa mesma porção do espectro.

Se queremos um futuro onde qualquer pessoa possa assistir a filmes em alta definição ou fazer chamadas de vídeo a partir de qualquer lugar sem fios, o que precisamos é de redes sem fio de curto alcance com roteadores em todos os lugares – como o que teríamos se todos abrissem suas redes sem fio.

O que precisa ser feito

A EFF está trabalhando com outras organizações para lançar um movimento Open Wireless em um futuro próximo. Nesse meio tempo, nós estamos ansiosos para ouvir de técnicos com experiência em redes sem fio que queiram nos ajudar a trabalhar nas tarefas de engenharia de protocolo necessárias para fazer o compartilhamento de redes mais fáceis de uma perspectiva da privacidade e do compartilhamento banda larga. Você pode escrever para nós em openwireless@eff.org.

1. Se você tiver uma rede sem fio aberta, pode receber significativa proteção jurídica da Seção 230 do CDA (contra responsabilidade civil e criminal do estado pelo que outros publiquem através do serviço) e da Seção 512 da DMCA (contra reivindicações de direitos autorais baseadas em pra o quê outros usam o serviço). Enquanto estas proteções não estão completas, a EFF regularmente se envolve em processos judiciais de impacto para ajudar a garantir que estas leis ofereçam proteção tão forte quanto o possível aos operadores de rede.

2. Esse tipo de rede sem fio pode utilizar criptografia assimétrica para gerar chaves de sessão secretas para cada usuário. O principal desafio com este projeto é como prevenir os ataques do intermediário. Os roteadores sem fio não têm nomes canónicos, de forma que não podem emitir certificados da mesma forma que sites encriptados com TLS fazem. Uma alternativa viável é o modelo da confiança no primeiro uso empregado por SSH: a primeira vez que você se conecta a uma rede sem fio, você pode ter que assumir que a chave do roteador está correta, mas você será notificado se mudar alguma vez (o que significaria que há um novo roteador, ou o início ou o final de um ataque de um intermediário). Se você pode realmente ver o roteador, você não tem que assumir que a chave está correta, pois você pode verificá-lo contra um número na própria caixa. Para outros usuários, a segurança poderia ser aprimorada com o uso de GPS ou por outros meios de lembrar não apenas as chaves de cada roteador, mas também se era esperado que ele estivesse presente em um determinado local.

Sobre Paulo Rená

Paulo Rená da Silva Santarém é jurista, ciberativista e flamenguista. Chefe de pesquisas do Instituto Beta: Internet & Democracia. Integrante fundador do Partido Pirata do Brasil. Em 2010 obteve o título de mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília com a dissertação "Direito Achado na Rede: a emergência do acesso à Internet como direito fundamental no Brasil", na qual recupera a história recente da mobilização social contra o AI-5 Digital até o surgimento do Marco Civil da Internet no Brasil. Servidor público federal do Tribunal Superior do Trabalho desde 2004. Entre 2009 e 2010 atuou na Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, onde foi gestor do projeto de elaboração coletiva do anteprojeto de lei do Marco Civil da Internet no Brasil. Entre junho e setembro de 2012 coordenou o desenvolvimento da pesquisa Modelos de Negócios Abertos ("Open Business Models") pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas.

Discussão

Um comentário sobre “EFF: Por quê precisamos de um Movimento Redes Sem Fio Abertas

  1. Muito interessante! O problema principal é realmente evitar os leechers que comprometem a banda. Eu já tentei deixar meu wi-fi aberto e não funcionou! Nem sequer consegui assistir a um vídeo no youtube. Só após a inserção da chave consegui navegar com qualidade.

    Publicado por Leon Almeida | 14 de junho de 2015, 07:30

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