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Estudo

Estudo de texto: O quê uma rede pode fazer?

Este é o primeiro estudo de texto realizado pelo grupo Cultura Digital e Democracia. Para tanto, escolhemos o texto “What can a network do?” (O quê uma rede pode fazer?), de Alexander R. Galloway.

Trata-se de um dos artigos presentes no livro Cidadania e Redes Digitais, tendo sido escolhido para esse exercício inicial em função do título, da qualificação do autor e do tamanho. A pergunta sobre o potencial de uma rede, enfrentada por um professor do Departamento de Mídia, Cultura e Comunicação da Universidade de Nova Iorque e apresentada em seis páginas pareceu bastante convidativa.

Resumo

Interesso-me pela emergência do modo de mediação em rede (um evento descrito de diferentes maneiras por diferentes pensadores de diferentes áreas do conhecimento). É usual descrever as redes associando-a a relações imparciais padronizadas e homogêneas entre pares, entre iguais. Essa caracterização é verdadeira mas oculta a realidade assimétrica e incongruente dos antagonismos que tornam a rede necessária.

Tome-se o exemplo da teoria militar. Nela a energia pura do antagonismo é denominada ameaça assimétrica ou em rede (e por isso se fala em redes de terroristas) e são usadas descrições como insurgentes, partidária e irregular; protesto e multidão; ou rebelião popular e atividade de guerrilha.

Grandes pensadores como Sun Tzu, Carl von Clausewitz, Lenin e Mao Tse-tung se dedicaram ao assunto. Mas é crucial citar pensadores da segunda metade do século XX que dão diferentes descrições do modo de mediação em rede.

Na guerra das pulgas de Robert Talbert o cão pode sucumbir ao cansaço com o tempo porquê tem muito a defender contra um inimigo muito pequeno, ubíquo e ágil. A multidão de Elias Cannetti adota uma direção firme a um objeto comum, visto como uma presa a ser abatida. E as alfinetadas de Guy Bressollet são não batalhas, formando uma onipresente série multiforme de ações manobráveis, pequenas individualmente, mas com consistência estatística.

Mais do que descrições, esses pensadores, assim como outros, defendem que estamos passando por uma transformação, na qual imagens e textos passam a ter eficiência cultural menor que o sistema, a máquina, a rede.

Muitos respondem o quê uma rede pode fazer com diferentes exemplos da resposta padrão: ela tem o potencial de se opor a uma hierarquia, mesmo quando surgem novas soberanias em rede. Em vez disso, proponho responder a partir da análise dos princípios de organização embutidos nos protocolos de internet. Em resumo, essa análise aponta três virtudes dos sistemas que são governados por um protocolo: interoperabilidade, totalidade e operação fora das esferas do Estado e do mercado.

A robustez, a contingência, a interoperabilidade, a flexibilidade e a heterogeneidade estão entre as virtudes dos protocolos, os quais permitem aos computadores operarem entre si. O princípio da robusteza inserido no protocolo de controle de transmissão (TCP) dispõe “seja conservativo no que faz, seja liberal no que aceita de outros” promove o fortalecimento do sistema porque causa um sistema de gerenciamento distribuído que facilita as relações paritárias entre entidades autônomas. Por isso a Internet pode ser vista como o meio de comunicação de massa mais altamente organizado até hoje conhecido. Daí a sugestão de que o protocolo requeira um método de análise único.

A partir dessas assunções sobre o protocolo, os meios de comunicação apresentam três ramificações  importantes para a cidadenia digital.

Primeiro, a tendência anti-hermenêutica, seguindo a teoria da informação de Claude Shannon e Warren Weaver, aponta uma indiferença ao sentido e ao conteúdo. A uma rede não é um texto a ser efetivamente lido, no sentido humano, mas sim um conjunto de dados a ser analisado sintaticamente de forma cibernética, escaneado, rearranjado, filtrado e interpolado. A interpretação é destituída pela simples soma de verificação (o que só aumenta com o que se chama de web semântica). Daí que o novo modelo de análise sugerido precisa considerar a noção de software.

Segundo, a tragédia política da interatividade, na qual as mesmas ferramentas que propiciam novas liberdades permitem novos aprisionamentos. A rede bidirecional que era tão liberadora e emancipadora para Bertold Brecht e Hans Magnus Enzensberger se tornou o próprio local central de exploração, regulação e controle. Isso porque ao invés de exceção, a interação é imposta a despeito da vontade, reforçando a indistinção entre a comunicação e o controle proposta no conceito de cibernética de Norbert Wiener. No termo de Phil Agre, os organismos são capturados de acordo com códigos e rubricas de informação e os comportamentos são ou mineirados em dados significativos ou rastreados em busca de dados ilegais.

Terceiro, a paradoxal lógica oculta do software, que privilegia a superfície ao mesmo tempo em que defende o código como essencial, ainda que escondido. No primeiro plano o software é um código fonte, comandos em linguagem de computador legíveis por humanos. Depois, os comandos são compilados e geram a aplicação, um código legível por máquina. No terceiro plano, a interface de execução oferece a quem usa a experiência normal do software. Assim, quando o código funciona, na experiência final ele é traduzido de tal forma a ocultar os planos anteriores. Há uma contraposição entre a manifestação eficiente de um programa de computador e o seu simultâneo ocultamento para quem o usa.

A recente notíciou de uma vacina para a cocaína, um triunfo da ciência que neutraliza os efeitos da droga, mas não remove o desejo de adquirir e usar a droga. É uma imagem perfeita para a condição da cidadania digital hoje. Embora o desejo por democracia, comida, bebida, petróleo, conectividade nunca tenha sida tão liberado, ainda assim não conseguimos realizar o prazer utópico dessas promessas. As redes são nossas armas, mas também nossas armadilhas. Nossa tarefa não é alimentar o heroísmo da rede, mas oferecer uma reconstrução crítica no código que a recoloque da atual ferramenta de gerenciamento para uma ferramenta de prática.

Considerações

Basicamente, todo o texto serve para que o autor defender que a análise do potencial das redes deve superar a comparação com a lógica da hierarquia e se voltar para os códigos inscritos nos protocolos. Mas chega a ser elogioso dizer que, ao contrário do que parecia, trata-se de um trabalho muito pouco convidativo. A estrutura do texto prejudica de forma quase incontornável a compreensão do conteúdo. Para usar uma figura do próprio texto, ele não consegue se ocultar, pois a todo momento construções argumentativas confusas nos lembram que estamos lendo um texto. E a tradução para o português, embora contenha uma ou outra impropriedade, não pode ser culpada. Aliás, é uma grande ajuda contarmos com um livro bilíngue.

A resposta geral do grupo foi bastante negativa ao texto. Foram bastante criticadas a enumeração desordenada, a apresentação frouxa das ideias, a ausência geral de rigor nas indicações e o recurso a analogias de difícil compreensão. Já de início, incomodou a junção de questões absolutamente diferentes como sendo parte de um mesmo “evento”, que pudesse ser identificado como a “emergência de mediação no formado de rede”. Ao final, o exemplo da cocaína se mostrou motivo de riso.

O recurso ao exemplo da teoria militar ocupa mais espaço e é mais desenvolvido do que a explicação de que as redes precisam de um método de análise própria, deixando deslocado o parágrafo inicial. A despreocupação com um concatenamento mais explícito deixa a impressão de que o texto muda de assunto de forma errática e torna muitas passagens dispensáveis ou mesmo prejudiciais para a compreensão da ideia central. E no fim percebe-se que a pergunta inicial, sobre o potencial da rede, não é respondida, mas apenas – ela mesma – questionada.

A partir dessa percepção, de que se trata de um texto com divagações críticas e não de um texto propriamente propositivo, pode-se defender que os questionamentos feito por autor trazem pontos bastante aproveitáveis. Ainda assim, somente com muita releitura e muita boa vontade é possível identificar argumentos, teorizações e ideias com potencial explicativo que podem ser aproveitadas no estudo da cultura digital.

Pulgas, multidões e alfinetadas

A tripartição apresentada é um instrumento rico de análise de conflitos. No mundo da cultura digital, o conceito de guerra das pulgas pode ajudar a entender o compartilhamento de arquivos; a ideia da multidão explica as enxurradas de comentários preconceituosos no twitter entre outras turbas e reações descontroladas; e as alfinetadas podem englobar a ação de grupos como Anonymous e LulzSec.

Conexões entre protocolo e Cidadania Digital

Um ponto muito rico no texto são as três conexões identificadas na relação do código dos protocolos de rede e a cidadania digital. A tendência anti-hermenêutica, opondo leitura e soma de verificação; a tragédia política da interatividade, opondo emancipação e aprisionamento; e o paradoxo da presença oculta do software, opondo expressão e invisibilidade.

Essas três ligações podem ser exploradas de forma muito frutífera na análise do comportamento das pessoas no uso da rede ou, em outra perspectiva, na observação de como os sentidos são produzidos ou ignorados nas comunicações em rede. A discussão sobre os limites do ativismo em rede (ciberativismo, hacktivismo) e a recorrente argumentação de que a rede não cumpriu as promessas de emancipação da sociedade podem ser enriquecidas se pensadas nesses termos, que consideram as dualidades que a tecnologia traz.

O “evento”

Considerando ser bastante problemática a junção de diversas questões num único evento, que Galloway chama de emergência da mediação no formato de rede, é interessante identificar quais são essas questões e quem são os autores que as trabalham. Aliás, vale reforçar a crítica de que poucos autores são citados e nenhuma obra é identificada, em uma falha importante nas indicações bibliográficas.

Seria necessário fazer uma “engenharia teórica reversa” serve como um exercício de traduzir para linguagem acessível o que o texto não conseguiu expressar de forma eficiente. Se há Martin Heidegger no fim da Filosofia, teríamos Fukuyama no Fim da História e Talcot Parsos, Maturana e Varella e Luhmann atuando no campo da “Cibernética, ou Ecologia, ou Teoria dos Sistemas”. Não identificamos autores que tratam da economia do pós-fordismo ou da indústria da computação em rede. E somente se pode apontar a supercialidade da menção a Gilles Deleuze, com referência ao dizer de “alguns”.

Sobre Paulo Rená

Paulo Rená da Silva Santarém é jurista, ciberativista e flamenguista. Chefe de pesquisas do Instituto Beta: Internet & Democracia. Integrante fundador do Partido Pirata do Brasil. Em 2010 obteve o título de mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília com a dissertação "Direito Achado na Rede: a emergência do acesso à Internet como direito fundamental no Brasil", na qual recupera a história recente da mobilização social contra o AI-5 Digital até o surgimento do Marco Civil da Internet no Brasil. Servidor público federal do Tribunal Superior do Trabalho desde 2004. Entre 2009 e 2010 atuou na Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, onde foi gestor do projeto de elaboração coletiva do anteprojeto de lei do Marco Civil da Internet no Brasil. Entre junho e setembro de 2012 coordenou o desenvolvimento da pesquisa Modelos de Negócios Abertos ("Open Business Models") pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas.

Discussão

2 comentários sobre “Estudo de texto: O quê uma rede pode fazer?

  1. Boa síntese das nossas críticas ao texto, @prenass. Bela estreia da nossa seção de estudos.

    Embora há de se considerar que o texto do Galloway é pequenino e que tem uma carona de transcrição de alguma exposição oral, a falta de precisão conceitual me incomodou um bocado. Em especial, o uso indiscriminado da palavra “rede” me chama atenção, pois torna difícil entender em alguns momentos se o autor se refere à internet (espécie de rede) ou a uma forma de socialização (gênero).

    Para não ser injusto com o texto, no entanto, destaco que ele suscita um debate interessante quanto ao potencial emancipatório da internet e das redes em geral.

    Pessoalmente, tedo a adotar um perfil mais cético quanto a isso. Acho, por um lado, que a internet (como qualquer outra tecnologia) não tem filiação política intrínseca e depende do uso que se faz dela. Tanto ela pode ser uma ferramenta de vigilância, quanto pode ser utilizada para fortalecer a democracia. Por outro lado, as redes (gênero) são mais uma forma de socialização como qualquer outra e não levam a nenhum finalidade intrínseca específica. Talvez por influência de pós-modernos como Lyotard (muito provavelmente, na verdade), tendo a ver com ceticismo grandes narrativas e expectativas como, por exemplo, a promessa de emancipação por meio das redes.

    Bom, o texto tem o mérito de abrir esse debate. Ele não se posiciona e nem acho que ele se dá conta desse debate. Mas possui, sim, esse lado positivo.

    Publicado por G. Sena A. | 20 de julho de 2011, 21:21

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