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Observações

so sorry, Kate: Dados são poder

Software hides himself exactly in the moment when it expresses itself most fully.

GALLOWAY, Allexander.

A necessidade de estar na rede é alvo de crítica de muita gente. Como Amber Case, que fala até que somos ciborgues, com uma segunda vida cibernética e extensora dos efeitos daquela “real”, ou como o longa-metragem Surrogates, estrelado pelo mega-bollywoodiano Bruce Willis, todos nós sofreríamos do inevitável desejo de sermos legais e populares também em um ambiente virtual.

O problema, no entanto, vai um pouco além da análise psicológico-social do assunto – Darwin já conseguiu deixar isso bem claro. Uma questão quase nunca comentada (e quase sempre relavitizada) é a divulgação dos dados dessa inevitável segunda-vida.

É Galloway(1) quem ressalta sobre as diversas camadas que um programa de computador esconde. A princípio, realça o fronte de batalha do usuário sobre a interface – aquilo em que clicamos e escrevemos. O usuário se apaixona pelo programa que interage com outras plataformas, traz soluções para problemas inimagináveis (também antes inexistentes) e resultados surpreendentes. É como aquela linda moça que passa e atrai todos os homens, conforme o conhecimento que tem sobre linguagem corporal, relacionamentos, cuidados estéticos etc.

Logo em seguida, Galloway lembra da parte executável, executable, que gera comandos para aquela interface gráfica. O programa, especialmente um sistema operacional, precisa ser tão ágil, útil e fiel quanto a necessidade do usuário. Em uma vida primeira, seria como uma um carro que pode só te dar uma carona de casa até o shopping, ou que pode estacionar, ganhar corrida e até falar com você.

And last, but not least, está o source, o aportuguesado código, ou mesmo o técnico código-fonte. Por meio de linguagem própria, como Java, C, C++, übergeeks são capazes de compilar o que pensam naquilo que o maquinário entende – só e apenas: zero e um.

Acontece que, sob a limitada visão do computador – binária – tudo pode ser feito escondido da interface, porque os programadores (por mais geeks que sejam) entendem também somente sua própria linguagem de programação. Em miúdos:, ao postar uma fotografia x em um sítio, é possível (e óbvio) que esse sítio publique e mostre essa gravura nos moldes pedidos – como foto de perfil, por exemplo. Contudo, nem tão óbvio (parecer ser) assim, mas o simples ato de postar pode levar o código a executar outras ações. Pode guardar cópia da imagem no servidor que hospeda o sítio; mas pode também conectar a imagem ao perfil e guardar a informação, para depois vendê-la uma agência militar; ou pode deixar uma porta-dos-fundos para que uma terceira empresa entre e recolha os dados que quer sobre seu perfil para depois manipular seus desejos inconscientes.

¬¬

A despeito de conspiratórias teorias que surgem na minha imaginação, o ponto é mesmo que, se mantido em segredo o código-fonte do programa, não será possível tomar conhecimento das ações que o source executa sob a interface.

A partir daquela interface legal de um programa super-interativo, o código fechado pede o custo da opacidade. Nem sempre é quando o barato sai caro (porque normalmente aquele opaco-programa-proprietário é bem caro), mas é sim quando se cria uma armadilha de manipulação do usuário.

Envolvido pela interatividade, o usuário se revela em corpo e alma: seu potencial poder de consumo e sua possibilidade de subordinação ao desejo. Então, cria-se um ciclo vicioso, em que o usuário, cada vez mais envolvido pela web, é mais é agradado em seus desejos manipulados – nunca mais privados ou verdadeiros.

As pesquisas que as grandes corporações fazem sobre mercado consumidor, em meios públicos e particulares de dados revelam muito para o mercado. Dados como “curtir” ou “like it” são diretrizes para manipulação do consumo e lucro – muito lucro. Ocorre que, sem optar por essa exposição desvairada, a sociedade da informação se faz obrigada a vender seus dados (desejos e destino), em troca do simples uso de um programa de computador.

Agora, fica claro mesmo entender que já se foram os idos da pedra lascada, da terra e do título nobre (so sorry, Kate!). Dados são poder na era da tecnologia (esta, em que você também vive e inevitavelmente participa). Dados são poder de quem os detém – seja de quem os é, seja de quem os estuda, seja de quem os manipula.

Não fosse tudo, a sociedade é informação e, se tomasse consciência de sua própria importância, poderia ser livre, até mesmo para escolher privar ou publicizar a si mesma, a cada um.

(1) GALLOWAY, Alexander R. 2010. What Can a Network do? In SILVEIRA, Sergio Amadeu (org.). Cidadania e redes digitais = Citizenship and digital networks. 1ª ed. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil/ Maracá – Educação e Tecnologias, 2010. Vários tradutores. Versão html disponível em <http://www.cidadaniaeredesdigitais.com.br/_pages/artigos_04.htm>, odt em <http://www.cidadaniaeredesdigitais.com.br/_files/004 galloway.odt> e pdf em <http://www.cidadaniaeredesdigitais.com.br/_files/004galloway .pdf>

Sobre mvilmondes

Advogada, formada pela Universidade Católica de Brasília.

Discussão

2 comentários sobre “so sorry, Kate: Dados são poder

  1. 1 – O título
    inicialmente, não entendi a referência do título, de onde viria a frase “so sorry, Kate”, mas agora que fui informado que ela se refere à nova integrante da família real britânica, questiono se a queda da nobreza como centro da sociedade, elemento que enseja o pedido de desculpas, se essa queda já não é bem anterior à emergência da sociedade da informação e, mais, se mesmo a sociedade da informação já não está um tanto quanto não nova para merecer figurar no título deste artigo, cujo foco me parece estar mais direcionado à exigência de que o código fonte seja uma informação acessível, além do que não creio que Kate seja exatamente a pessoa que possa personalizar o grupo que mais perde com a revolução decorrente do deslocamento dos fatores de poder que a cultura digital trouxe à sociedade.

    2 – Sugestões de alteração:
    a) incluir links nos termos: “Amber Case”, “ciborgues”, “Surrogates”, “bollywoodiano”, “Bruce Willis”, “Darwin”, “quase sempre relavitizada”, “segunda-vida”, “Galloway”, “Java”, “C”, “C++”, “übergeeks”, “muito lucro”,
    b) Retificar “uma um carro”;
    c) Excluir “aportuguesado”, pois, lembre-se que a aplicação “hides himself exactly in the moment when it expresses itself most fully”, ou seja, seu texto será tão melhor quanto mais se esconder no momento de sua maior expressão. Pretendo desenvolver esse ponto do texto do Galloway, acho que ele é genial e se aplica ao mundo presencial, por exemplo, em uma atuação cinematográfrica bem sucedida.
    d) Substituir “fotografia x” por “fotografia qualquer” ou “fotografia xis”.
    e) De alguma forma, expressar logo no início do texto a ótima proposição da frase “mantido em segredo o código-fonte do programa, não será possível tomar conhecimento das ações que o source executa sob a interface”.

    3 – Vida primeira, vida segunda
    Pergunto-me se o termo “vida primeira”, bastante adequado em sua relação com o que seria uma “second life”, é inaugurado aqui neste artigo ou se é apropriado de outra fonte. Acho-o interessante porque dialoga com o adjetivo “presencial”, que tenho usado em contraposição ao virtual, habitual e inadequadamente contraposto a “real”, “verdadeiro”, “material”, “físico”, “analógico” etc.

    Publicado por Paulo Rená | 18 de maio de 2011, 19:19
  2. so sorry, Kate.. Middleton – mulher do Príncipe William (?!) – piadinha de quem queria virar princesa, pô…
    Faz sentido, agora?

    Publicado por mvilmondes | 18 de maio de 2011, 19:21

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